quarta-feira, março 25, 2009

Goshu


Goshu é um músico que não consegue acompanhar os seus colegas da orquestra e vive levando broncas do maestro. A imagem ao lado foi um dos estudos que fiz para este personagem. E como era um estudo, sem preocupação de pintar "certinho", um dos olhos saiu diferente do outro. Senti que isso poderia caracterizar o personagem... um olhar levemente torto e assustado. Está no original de Kenji Miyazawa "Goshu, com os olhos feito círculo", de tão arregalados e presos na partitura. Comenta-se que o autor pode ter se inspirado na palavra francesa "Gauche" para nomear esse violoncelista.

O violoncelista



Goshu é um personagem criado por Kenji Miyazawa, um autor clássico muito amado no Japão que faleceu em 1933, com 37 anos. Há um tempo tinha este conto,"O violoncelista", traduzido, uma vontade muito grande de ilustrar e apresentálo aos leitores. Agora esse desejo se concretiza. Tentei não fazer um lay-out muito acabado, apenas um esboço, pois queria manter as primeiras pinceladas mais cruas. E o papel que melhor se adaptou foi o sulfite comum, não muito adequado para aquarela, mas neste caso deu o efeito que eu queria. A palheta de cores ficou com um predomínio de azul e marrom.

quarta-feira, março 04, 2009

Aquarela e papel

Quem usa aquarela, às vezes se depara com um problema — o papel, se tiver uma gramatura baixa, enruga formando sombras na hora da digitalização. Aí vai uma dica. Você pode preparar o papel antes. Molhe com um pincel e cole com fita gomada, numa prancha de madeira sem verniz. Depois de secar bem, retire cortando as bordas; o papel vai estar bem esticado. E se preferir, pode pintar primeiro e fazer o mesmo procedimento pelo avesso.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Estudo de técnica e personagem































São alguns testes para escolher a técnica e definir os personagens. E o que levei em consideração? No texto, o autor traz cenas bem delimitadas, o que me fez usar uma imagem de abertura e vinhetas de fechamento para a entrada e a saída dos personagens. O conto traz uma força que vem da terra, ao mesmo tempo, há uma atmosfera da noite que envolve a maior parte dos acontecimentos. Então, pensei numa predominância da mistura de cores puxando para terra e azul. O personagem tem algo de tosco no seu aprendizado, não sabe lidar muito bem com as emoções, uma leve deformação na perspectiva ajudaria. Tentei finalizar em guache, como está no primeiro quadro. Ainda senti comportado demais. E, por fim, optei pelo uso de uma pincelada menos acabada, assim como é esse jovem. A segunda imagem (um detalhe da cena) ainda está sem pintura, apenas com a cor que joguei no computador para dar o clima.

sábado, fevereiro 14, 2009

Os bonecos















Alguns são de 1992, outros mais recentes. Em geral, os bonecos são ótimos para amadurecer uma idéia e para mostrar ao editor algo mais concreto. Fazer o lay-out muito próximo da finalização também traz problemas, como querer copiar os mesmos efeitos e nunca conseguir. Ainda assim, vale a pena. Até encontrei soluções para as histórias que não estavam bem amarradas. Nos bonecos recentes, usei o programa de edição, o que facilita demais. Dá pra ampliar, diminuir, inclinar, esmaecer... Quem sabe ainda descubro outros recursos? Lembro que cheguei a usar cola benzina, não sabia que escurecia com o tempo. Ao menos uma etapa da colagem consegui eliminar. Continuo montando, página por página. Essa parte artesanal me dá prazer, é ver a idéia inicial tomar a forma de um livro.

Estilo

Um dia comentei com o meu orientador "acho que ainda não tenho um estilo meu". Isso foi quando estava na Universidade de Fukuoka, no Japão, em 1988. "Estilo não é algo que você escolhe e decide ter, surge com o tempo", foi o que ele me respondeu. Alguns artistas trazem um estilo marcante desde cedo, outros adquirem com o tempo.
Decidi não pensar sobre isso e me dedicar simplesmente.
Durante a Bienal de Minas, ouvi a Angela Lago dizer que nunca tinha se preocupado com estilo. Aí é que me dei conta de que eu havia rompido também com essa idéia há muito tempo, pois não era o meu perfil. Apenas tento sentir, se aquelas imagens estão ganhando força (naquela técnica, com aquela forma de expressão) junto com o texto, ou se as palavras estão crescendo com as ilustrações, e se é o máximo que posso fazer.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

As capas de Sayuri






















Vinha pensando em exibir o processo de elaboração da capa, pois nesse livro deu um pouco de trabalho. Na verdade, já tinha em mente a imagem da menina riscando o chão. Mas os primeiros estudos ficaram infantis demais. E aí, sugestão do editor de arte, usar apenas a silhueta. Ainda não cheguei no ponto. Então, tentei mais duas opções que não deram certo.
Bom, voltei para a imagem da silhueta, afinal, a idéia não estava ruim. Mudei a técnica, desenhei em grafite, num papel reciclado. E foi aprovado, depois de várias tentativas.

sábado, janeiro 31, 2009

Onde moram as histórias






















Eu tinha um cachorro quando criança. Tinha, da forma como se pode ter um cachorro morando na roça. Era tão livre o "meu" cachorro, o cercado de arame não impedia as suas aventuras por matas. De vez em quando, ele voltava com o focinho espetado por espinhos. E foi assim que eu soube de um bicho esquisito, o porco-espinho. O Duque (esse era o nome) trazia um pouco do mistério da mata. E por que eu achava que o cachorro era meu? Não sei ao certo. O Duque era malhado, não me lembro como nem quando ele chegou em casa, mas nessas lacunas moram as histórias.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

As coisas mais próximas de nós

















Escrever e desenhar são formas de olharmos para as coisas simples, que nos são próximas, mas lançando um novo olhar. Assim, enquanto fazia esses desenhos, lembrei que a comida em casa era quase tudo tirado da terra. As verduras, as batatas doces, a mandioca, o café... Até linguiça era feito em casa. Nada foi mais divertido do que ajudar nessa empreitada que era uma festa. A carne de porco, moída na máquina e temperada com sal, alho, pimenta, entrava numa outra máquina e saía dentro de uma pele bem fina que dava o formato comprido, voltas e mais voltas de tão comprido. Outra coisa muito divertida, que cabia a mim e a minha irmã, era furar com uma agulha essa linguiça, que ia soltando a gordura. Pronta, ficava pendurada em cima do fogão, a gordura pingando pelos furos e caindo no fogo, espalhava um cheirinho gostoso de defumado pela casa. Sempre tinha algum cheiro nos envolvendo. A minha irmã esteve nos Estados Unidos e comentou sobre uma lareira artificial, que aquecia, mas faltava o cheiro da lenha. Lembrei do "Não verás país nenhum" de Inácio de Loyola Brandão, nesse livro as pessoas precisam comprar cheiros.

sábado, janeiro 17, 2009

Quando a idéia não chega











Quando estou ilustrando e não vem nenhuma idéia, tento algumas possibilidades para puxar a imagem. Como por exemplo, fazendo pesquisa. Foi assim que encontrei uma foto de um tucano bicando caqui. No texto não tem tucano nenhum, mas fala de vizinho que gosta de caqui. Tucano não pode ser um vizinho? Claor que pode.
Outras vezes, jogo o texto no espaço e fico olhando o branco. Ou então, busco as imagens enquanto caminho, antes de dormir... E se, nada disso funcionar, deixo pra lá. Num momento inesperado, elas aparecem. O desenho embaixo tem a ver com girar e com rolar.
Assim que este projeto estiver mais maduro, pretendo contar mais.

sábado, janeiro 10, 2009

As marcas da mão


Um dia, mostrei fotos dos quadros que pintava e também algumas ilustrações para o professor e grande gravurista Evandro Jardim. Nunca esqueci o comentário dele — "você não deve pensar que são dois caminhos, mas apenas um, tanto a ilustração quanto a pintura". Voltei muito grata com a sua orientação, mas eu ainda não tinha a capacidade de deixar as pinceladas nas ilustrações. Aos poucos, depois de muitos anos, é que comecei a criar coragem e deixar a marca das mãos, seja em pincelada, seja em traços de grafite... ainda, vez ou outra, me vejo querendo retocar demais.

Pinturas antigas






























































Comecei o ano fazendo uma limpeza na casa. E aí, acabei revendo os quadros antigos a óleo. Creio que pintei durante uns três ou quatro anos e parei. Ou melhor, decidi aplicar tudo que aprendi sobre cores, pinceladas, composição, nas ilustrações de livros para crianças. A pintura fez parte de um processo, busca de uma linguagem para tentar encontrar a minha forma de expressão. Não tenho mais pintado em óleo, pinto com guache, aquarela, lápis... e porque não dizer, com palavras.

sábado, dezembro 20, 2008

Final de ano


Este ano foi muito especial para mim. Visitei muitas escolas, conversei com os meus leitores e participei de vários eventos literários.
E chegou o final de ano, tão ligeiro.
Lembrei das festas da comunidade japonesa, de nome"bounenkai". Ainda era criança, num desses encontros, um senhor fez o discurso e explicou que essa palavra traz os ideograma "esquecer" , "ano" e"encontro". Então, era um encontro para se esquecer as coisas difíceis, deixar para trás e recomeçar.
Deste ano quero me lembrar de tudo com muito carinho.
E desejo à todos uma boa passagem de ano.

Desenhos da Caro

Minha sobrinha Carolina (com 10 anos) está aprendendo desenho numa escola. Os dois quadros em grafite são dela. Na maioria das vezes, ela gosta de rabiscar no estilo mangá. Dou uns conselhos, digo que o melhor para se aprender é copiar do real. Mas, quando eu tinha menos de 10 anos, ainda morando no meio do mato, até mandei uma história em mangá para o Japão. Depois de um tempo chegou uma carta da redação, dizendo que estavam felizes por eu ter enviado um trabalho de tão longe, que era para continuar estudando.
De um lado fiquei triste por não ter dado em nada e feliz por saber que os desenhos chegaram em algum lugar, alguém tinha visto e havia todo um mundo para onde caminhar.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Sensações e fragilidade

Quando frequentei os Laboratórios Literários do Museu Lasar Segall, entrei muito em contato com as memórias da infância. E, não parei.
Outro dia, fui mostrar um dos projetos para um grande ilustrador/autor que admiro muito. E ele fez um comentário — que a fragilidade do rafe estava se integrando muito bem à história que fala das sensações mais simples, das primeiras brincadeiras de infância. Apesar de já estar planejando usar a expontaneidade do rascunho, a definição dele foi de uma clareza que me impressionou.